Abra o TripAdvisor e procure «Boa Vista, Cabo Verde». Vai encontrar dois tipos de avaliações. As primeiras dirão: «Ilha bonita mas não há nada para fazer», «Demasiado calma para mim», «Aborreci-me ao fim de três dias». As segundas dirão: «A ilha mais bonita que já vi», «Voltei dois anos seguidos», «Impossível esquecer aquele pôr do sol sobre as dunas».
Quem tem razão? Todos. E é precisamente aí que fica interessante.
O que a Boa Vista não é
Sejamos honestos. A Boa Vista não é para toda a gente. E isso não é um defeito — é uma identidade assumida. Eis o que a ilha não é, e se procura estas coisas, é melhor escolher outro destino:
A Boa Vista não é uma ilha animada. Não há um centro histórico para explorar, nem um mercado coberto vibrante, nem um bairro gastronómico. Sal Rei, a capital, é uma aldeia. Uma bela aldeia, autêntica, cabo-verdiana — mas uma aldeia. As noites são calmas. Muito calmas.
A Boa Vista não é um destino de discotecas nem de festa. Se procura vida noturna, Mindelo, em São Vicente, é a sua ilha. A Boa Vista adormece cedo e levanta-se com o sol.
A Boa Vista também não é uma ilha para quem procura agitação permanente, atividades organizadas em série, buffets à discrição e animação de piscina. Não oferece distração — oferece espaço. Não é nada a mesma coisa.
O que a Boa Vista realmente é
Agora, a parte que explica por que razão alguns regressam todos os anos. A Boa Vista é a ilha do espaço, do silêncio e da luz. E num mundo saturado de ruído, é um bem raro.
A ilha tem mais de 55 quilómetros de praias — a grande maioria absolutamente desertas. Não uns metros de praia virgem no fundo de uma enseada de difícil acesso. Quilómetros e quilómetros de areia branca ou dourada, sem uma alma, sem um chapéu de sol, sem o mínimo sinal de infraestrutura turística. Apenas o mar, o vento e você.
No centro da ilha, o deserto de Viana desenrola as suas dunas a perder de vista. Uma paisagem sariana no meio do Atlântico. Cristas de areia alaranjada, formações rochosas esculpidas pelo vento, uma luz que muda de hora a hora e transforma cada fotografia num quadro.
E depois há as tartarugas. A Boa Vista é uma das zonas de desova de tartaruga-comum mais importantes do Atlântico Norte. Todos os verões, centenas de fêmeas sobem às praias desertas para enterrar os ovos. É um espetáculo natural de uma intensidade que poucos lugares da Terra podem oferecer.
A diferença entre duas estadias na Boa Vista
A chave para compreender as avaliações contraditórias é perceber que existem duas formas radicalmente diferentes de viver a Boa Vista. Duas experiências que quase nada têm em comum.
- Piscina do hotel, bar de cocktails
- Praia em frente ao resort, animada e cheia
- Excursões em minibus de grupo
- Buffet à noite, animação do hotel
- Sensação de não ter descoberto nada
- Dunas de Viana ao nascer do sol
- Praia deserta acessível de quad
- Costa rochosa sem uma alma viva
- Pôr do sol a partir das dunas
- Impossível de esquecer — e vai voltar
As pessoas que regressam desiludidas são, na sua grande maioria, as que ficaram na primeira coluna. Viram a ilha da espreguiçadeira da piscina. Olharam para a Boa Vista sem a viver.
Os que regressam transformados são os que ousaram sair — de quad, a pé numa praia deserta, de caiaque. Os que perceberam que a ilha não vem ter consigo. É você que vai ao seu encontro.
«A Boa Vista não se vê de uma varanda. Vive-se do selim de um quad, de olhos semicerrados contra o vento.»— Um viajante da QuadAzul, após a sua terceira visita
O nosso veredicto
Sim. Absolutamente. Mas com uma condição.
A Boa Vista vale o desvio — desde que não fique passivo. A ilha não se oferece aos turistas que esperam que ela venha ter com eles. Pertence a quem parte à sua descoberta. E o quad é a melhor chave que existe para abrir as suas portas mais secretas.
As praias que o vão marcar para a vida não estão em frente ao seu hotel. As dunas que lhe cortarão a respiração não se veem da estrada principal. As tartarugas que o vão comover não desovam em praias cheias.
Tudo o que a Boa Vista tem de mais belo está longe dos circuitos sinalizados. E é precisamente isso que o torna precioso.
Então sim — a Boa Vista vale mesmo o desvio. Mas esse desvio só começa de verdade quando aceita abandonar os caminhos traçados. Quando sobe para um quad, sente o vento quente no rosto e desaparece nas dunas rumo a algo que nunca imaginou ver.
Pronto para a aventura?
Não fique passivo perante uma das ilhas mais belas do Atlântico. Pegue no volante — ou melhor, no guiador.